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Mar 09
publicado por hoogavermelho, às 14:46link do post | comentar | ver comentários (2)

 

1.O clube dos favores, como bem se sabe, teceu ardilosamente e tem imposto a sua verdade desportiva. Há quem diga – poucos, na realidade – que essa verdade se chama de batotice.
Tímida e veladamente, parece que já houve mesmo uma putativa encenação a que chamaram de condenação desportiva. Sim, parece que um clube supostamente grande e o seu presidente foram considerados autores de tentativa de corrupção desportiva e que, timidamente, Portugal, a Europa e o Mundo souberam dessa tentativa de batotice.
Sir Alex Ferguson teria dito depois que o tal clube condenado ganhava campeonatos como quem compra mercadoria no supermercado. Só não se sabe se ele já sabia em que moeda é que o comprador pagava tanta campionagem.
 
É incontestável que todo o verso do batoteiro favorecimento tem o seu reverso no inevitável pagamento que pode ser serôdio e servido em minimidade escandalosa.
 
O primeiro grande reverso verifica-se na vermelhidão das contas, a qual, de tanta reincidência, está finalmente a obrigar a um sistemático recurso ao crédito para pagar dívidas vencidas ou praticamente vencidas, sem que haja cheta para as saldar.
 
2.Da encenação de condenação desportiva já se disse algo. Falta acrescentar que essa encenação foi tão desajeitada que até alguns dos condenados sorriram e não se deram sequer ao incómodo de dela recorrer.
Condescendência com condescendência se paga!
 
 
Esta condenação teve, porém, um mérito. Ficou registada na memória das gentes, alguma curta outra longa, permitindo que, por devoção à verdade, se possam apelidar de corruptos por tentativa, ou batoteiros da verdade desportiva, aquele clube regional e seu presidente, novel conselheiro familiar.
 
Um dos piores reversos do ajuste de contas do favorecimento – que chegou a ser agraciado no nosso local dito berço da expressão democrática – foi a palestra de Platini a um jornal, salvo erro, espanhol. 
Platini disse ai ao mundo inteiro que não queria batoteiros nas provas uefeiras, estando a referir-se em concreto ao clube dos favores. A ousadia e o descaramento tem-lhe valido mimos sem fim dos escribas portugueses arregimentados para o efeito, quais virgens impúdicas da condenada tentativa de corrupção batoteira.
 
Só que Platini é chefe de orquestra que não batuta!
E que, ainda por cima, tem lá, no Comité de Apelo da UEFA, o Meritíssimo Juiz Mortágua!
Assim, como chefe graduado sem mandato, parece que terá de engolir o seu batoteiro!
 
3.Aqui há uns anos, a justiça de um País civilizado, a desportiva e a penal, actuaram rapidamente e a orquestra, de que Platini agora é chefe sem batuta, até teve a coragem de retirar um título europeu ao seu vencedor em campo! E o presidente respectivo acabou com o costado na prisão.
Outros tempos, outra gente, outra Justiça!
 
Aqui há uns anitos, menos, uma outra Justiça civilizada, mesmo em País berço da máfia, fez Justiça exemplar. Retirou títulos e baixou de divisão os batoteiros.
Mas já então, a UEFA, agora de um Platini enfurecido contra os batoteiros, se ficou nas covas…
 
Passados anos sem fim, a Justiça de Portugal está acabrunhadamente a julgar. E se o aparato e decurso da lide são, tal como a própria lide, considerados uma inutilidade, pela grande maioria das gentes, não deixa ela de nos ir revelando aspectos curiosos, alguns surrealistas, aqueles aspectos à moda de um cozido à portuguesa, mas azedo e putrefacto.
 
4.Não nos interessa tanto a histeria colectiva da minoria de adeptos fanáticos, guarda de honra a preceito da personagem. Interessa-nos, em primeiro lugar a revelação surpreendente dos dotes de um auto intitulado conselheiro familiar.
Não, não é pela provecta idade do novel conselheiro, isso seria um disparate! A idade tem uma importância de experiência e, no contexto humano, de vivência feita.
Também não é pela estapafúrdia escolha do senhor árbitro arguido que, se de problemas familiares padecia, o lógico seria pedir ajuda a um padre, psicólogo, psiquiatra, ou a um amigo do peito.
 
É, precisamente, pela vivência narrada da personagem agora devotada a conselheira!
 
De facto, recordamo-nos de alguns casamentos ou ajuntamentos vários, desfeitos e refeitos num ápice, uma barafunda permanente de mulheres e filhos … ou filhas!
Lembramo-nos de alegadas surras, em potência ou em acto, em cônjuge abandonado e agora de novo tomado!
Lembramo-nos de alegadas intervenções de polícias e ladrões contra os que queriam casas e mobílias, de alegadas disputas nos tribunais!
Finalmente, lembramo-nos das “estaladas em Carolina” que também vão a julgamento!
 
Não levamos a mal ao senhor árbitro. Afinal de contas, ele sabe de certas tradições. Sabe que, em ceras zonas do globo, quando se têm problemas familiares vai-se falar com o papa.
 
5.Admiram-se muito de que o senhor árbitro tenha exposto os seus problemas familiares, precisamente ao presidente de um clube cujo jogo ia apitar no dia seguinte!
Que pacovice! Então não era esse, porventura, o momento mais apropriado para a exposição de tais problemas e solicitar o melhor aconselhamento, em especial se aqueles tivessem a ver com questões do foro monetário, foro esse que é a principal fonte de que emanam problemas dessa natureza?!
Não é a própria alegada vivência do novel conselheiro familiar nas alegadas disputas de mobília, casa e restante recheio?!
E de alegadas faltas de pagamento de colégio de filhos, ou melhor, filhas?!
 
O senhor árbitro escolheu o melhor conselheiro de ocasião … e precisão!
 
6.O segundo episódio digno de registo é mais burlesco, mais ficcional, presenciamo-lo no cinema a toda a hora.
Presenciámo-lo ao vivo, todavia, naquela região de, ao que parece, um outro Portugal!
Presenciámo-lo há umas décadas, quando um certo guarda era o chefe da trupe que arriava nos adversários, para ela inimigos, nem que estes fossem presidentes de outro clube de futebol.
Presenciámo-lo há pouco com os adeptos do Benfica que pagaram o seu bilhete por inteiro mas a quem a polícia só deixou ver metade do espectáculo.
Presenciámo-lo agora na agressão a uma testemunha que, supostamente, devia estar protegida pelas forças de segurança.
 
O insólito de, pela primeira vez, termos visto uma testemunha como alvo da fúria da populaça e a santificação sacrílega do réu, é coisa que não espanta! É o resultado natural do clima de guerrilha que o réu tem promovido de há duas décadas e meia para cá.
Tratou-se do arrivismo próprio da guarda pessoal que escolheu!
Que o diga Ricardo Bexiga!
Que o disse Paulo Assunção que não ficou, ele e a família, sem as suas perninhas porque … ó pernas para que te quero!... E pôs-se na alheta para o estrangeiro, antes que se fizesse tarde!
 
Aquilo que se viu é uma marca registada!
 
7.O que é verdadeiramente grave é que as forças de segurança não cumpram o seu dever nacional e, por acção ou por omissão, protejam os interesses de um certo clube regional e do réu, seu presidente!
Mas o espanto esvai-se quando estamos num País em que se consegue avisar o réu para fugir antes de ser detido!
E quando a presunção era a de que essa detenção devia estar no maior dos segredos dos deuses!
 
8.O episódio mais marcante deste julgamento – até ao presente, diga-se – estava, porém, reservado um pouco mais para diante. Trata-se da testemunha – ou melhor, do que ela disse – Senhor Dr. Juiz Mortágua.
 
O Dr. Juiz Mortágua revelou factos e episódios de extrema importância, tanta quanta a gravidade que lhes está subjacente.
Para o Meritíssimo Juiz Dr. Mortágua, 500 contitos para subornar um árbitro de futebol é devaneio acriançado, uma espécie de rebuçado com que se vai acalmando a gulodice da petizada!
 
Não, nada disso que estais a pensar, o Dr. Juiz sabe que havia árbitros corruptos!
O Dr. Juiz até sabe de um caso concreto em que o árbitro corrompido custou 1.500 contos a cada clube!
São 1.500 contos, caramba, 1.500 contos a dobrar, quais quinhentos contitos?!
Por isso, conclui o Senhor Dr. Juiz Mortágua, falar em 2.500 € (os tais 500 contitos!), é um dislate, uma tontice!
 
O Meritíssimo Juiz Mortágua esqueceu-se de muitas coisas. Inclusive, e o que é mais grave, das implicações que as suas declarações encerram.
 
Esqueceu-se de que teve responsabilidades como conselheiro da Comissão Disciplinar da Liga, de que foi presidente!
Esqueceu-se de que teve responsabilidades como conselheiro do Conselho de Justiça da FPF, de que foi presidente!
Esqueceu-se de que os juízes têm deveres de ética muito superiores aos do comum dos cidadãos!
Esqueceu-se de que, enquanto juízes, não devem pactuar, em momento algum e seja em que circunstância for, com ilegalidades!
 
O Senhor Dr. Juiz Mortágua, tendo tido conhecimento dos casos de corrupção e de casos concretos de corrupção, devia ter tomado todas as medidas necessárias para punir esses casos!   
E devia tê-lo feito, não apenas como conselheiro da CD ou do CJ!
Devia tê-lo feito principalmente como e enquanto juiz!
 
Expõem-se aqui as palavras de um árbitro em actividade, transcritas num jornal, que revelam tudo o que se pode pensar da actuação do Meritíssimo Juiz Mortágua:
 
«…Se houve corrupção, é grave. E tão grave como essas situações são as pessoas que dizem que sabiam e não fizeram nada na altura própria. Estão ao nível do suborno e da corrupção. Não faço comentários à pessoa mas às palavras…»! (o sublinhado é nosso)
 
Não são necessários mais comentários, estas frases espelham bem a corrupção do futebol português e a protecção que foi e é dada aos corruptos.
 
É que o Senhor Juiz Mortágua, com o que pretendeu ser uma anedota brincalhona, em coisas muito sérias, ainda para mais, se atendermos à época de abastança do presente, esqueceu-se, e não devia ter-se esquecido, de um facto concreto da realidade e da história da corrupção no futebol português!
 
O único caso – o único, Meritíssimo Juiz! – de condenação de um árbitro por corrupção em Portugal, aconteceu por ele ter recebido … 500 contitos … nada mais!...
 
Será que o Senhor Dr. Juiz se esqueceu do chamado caso dos quinhentinhos?!
 
9.Voltou à liça nos corredores do julgamento o caso da fuga do réu para Espanha, antes de ser detido, fuga que teria alegadamente sido abençoada pelo Meritíssimo Juiz Mortágua, com uma passagem pela sua casa em Vila Nova de Cerveira.
O Senhor Dr. Juiz voltou a negar ter dado guarida ao fugitivo, uma vez que já dissera várias vezes não ter casa naquela localidade.
 
Não tiremos, todavia, conclusões precipitadas deste facto!
A negação só prova – de resto, com a ajuda de outra prova até mais convincente – que o Meritíssimo não tem casa em Vila Nova de Cerveira e que, por isso, não deu guarida em sua casa, naquela localidade, ao fugitivo réu!
 
Não prova, por exemplo, que o Senhor Dr. Juiz não tenha lá amigos e até que lhes não tenha solicitado o favor!
 
Mas também não prova que tenha lá esses amigos ou que lhe tenha pedido o favor da guarida!
 
Sejamos claros, o que fica, possivelmente ad aeternum, é a dúvida, porque avisado foi o fugitivo e ajudado também!
 
10.Mas este julgamento parece fugir à realidade que lhe está subjacente. Essa realidade não foi propriamente a de beneficiar o clube do réu com uma vitória. Essa realidade foi a de assegurar que o clube do réu não tivesse problemas de maior pelo facto de ir jogar com nove jogadores das chamadas reservas, a fim de poder descansar os jogadores titulares para o jogo da Liga dos Campeões, a disputar daí a três dias!
Não foram só os clubes nacionais os burlados ou os que se tentaram burlar!
Foi também, e principalmente, o Desportivo da Corunha e, por tabela, a UEFA!
 
É um julgamento que, de facto, flutua sobre a realidade e a verdade material, seu objectivo único e sagrado.
Com efeito, para que servem os peritos chamados a analisar as incidências do jogo e os supostos favores do árbitro dos aconselhamentos familiares?!
Se esses peritos concluírem pela não visibilidade real de favores, o que é que isso prova?!
Prova que o árbitro não foi corrompido?!
 
Não, quando muito pode provar apenas que se não vislumbraram casos de favorecimento!
 
Por isso, fazem todo o sentido as palavras do ex-árbitro auxiliar do paciente do bisonho conselheiro familiar, de resto, árbitro esse escorraçado da arbitragem por incomodidade ao sistema:
«…Analisar jogos depois do final é como saber o Euromilhões ao sábado de manhã…»

 


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